Vila do Conde [Portugal] Quarta-Feira, Julho 02, 2008
DEFESA DO RAMAL DA LOUSÃ PODE LEVAR A CORTE DA LINHA.
UTENTES ACHAM “ TERRÍVEL “ A PROPOSTA DE RECURSO AO AUTOCARRO DURANTE AS OBRAS.
O percurso no troço ferroviário Coimbra-Serpins, que costuma durar uma hora, pode passar para o dobro, se a viagem for feita em autocarro. Os utentes não aceitam e admitem endurecer a luta.
A viagem para testar a solução autocarro foi promovida pelo Movimento de Defesa do Ramal da Lousã e contou com cerca de três dezenas de participantes. "Com este sistema enquanto o ramal estiver em obras, as pessoas vão ter de sair muito mais cedo e chegar muito mais tarde", avisa Isabel Simões, membro do movimento e utente da linha há 22 anos.
O transporte utilizado foi decorado com alguns cartazes alusivos à luta que o movimento vem travando há já algum tempo. "Não danifiquem! Electrifiquem"; "Ramal centenário merece respeito" ou "Não 'tramem' a nossa linha" (numa alusão à adopção do "tram-train" pela Metro Mondego) eram algumas das frases que se podiam ler junto às janelas. O movimento pede que seja feito um estudo alternativo, "a juntar aos que foram feitos nos últimos 15 anos. "Se demonstrarem que não temos razão, que o demonstrem", afirma Isabel Simões, renovando o apelo para a electrificação e modernização da linha. "Há alternativas técnicas para uma modernização deste meio de transporte que não obrigam ao seu encerramento, podendo, por exemplo, os trabalhos decorrer de noite", justifica.
O autocarro arrancou do apeadeiro de Coimbra Parque (próximo da estação de Coimbra) às 18.20 horas, tendo iniciado a viagem com 25 pessoas. Na estação de São José, na Solum, junto ao Estádio Cidade de Coimbra, entrou mais uma dezena de passageiros. A partir do momento em que se sai da cidade, o percurso torna-se acidentado, pela estrada que segue a linha do caminho-de-ferro. As zonas próximas dos apeadeiros da Quinta da Ponte e da Conraria (antes de chegar a Ceira) são marcadas por uma estrada estreita e sem protecção, muitas vezes ao lado de desfiladeiros. "E isto hoje até se está a fazer bem, porque já estão pessoas de férias e há menos tráfego", exclamou uma passageira dos lugares do fundo.
Uma das utentes afirma mesmo que tem de mudar as rotinas familiares. "A minha filha vai agora para o 7.º ano e vou ter de a matricular mais perto de casa, no Senhor da Serra. Não a vou sujeitar a levantar-se às seis da manhã e só voltar às 19 horas", explica Felismina Conde, 43 anos, secretária no Instituto de Medicina Legal, em Coimbra. "Ela vai ter 13 disciplinas. Com uma carga horária destas, não a vou sujeitar a um desgaste ainda maior", afirma, classificando a viagem em autocarro como "terrível". Às 19.30 horas chegou a Miranda do Corvo e cerca de meia hora depois à Lousã, seguindo para Serpins. Pelo meio, na zona dos Casais, a estrada torna-se estreita, com o percurso a ser partilhado com pesados de carga. A chegada a Serpins aconteceu, finalmente, às 20.20 horas.
O lançamento do concurso público internacional para o material circulante do metro aconteceu no mesmo dia da viagem, o que para Isabel Simões é um "bom sinal". "Até fomos convidados pela Metro Mondego para estar presentes. Isso mostra que estamos a incomodar alguém", sublinha. Quanto a iniciativas futuras, o movimento recorda a luta em Anadia contra o fecho das Urgências e avisa: "Vamos para a rua, e se for preciso cortamos a linha".
Fonte: Jornal de Noticias
David Parelho