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POLÍTICA: A LUTA DOS FERROVIÁRIOS DO SUL NOS ANOS 50.

Vila do Conde [Portugal] Quinta-Feira, Junho 26, 2008

POLÍTICA: A LUTA DOS FERROVIÁRIOS DO SUL NOS ANOS 50.


Durante muitos anos a organização dos ferroviários do Sul ressentiu--se da tremenda repressão desencadeada sobre o anarco-sindicalismo, que tanto tinha influenciado a sua luta sindical, até à acção revolucionária frustrada em 18 de Janeiro de 1934. A complexa transição ideológica e a opressão nas Oficinas do Barreiro, explicam o recuo notório de uma classe aguerrida, notadamente na altura da grande luta de 1943, à qual não aderiu.

Pouco a pouco porém, os homens dos caminhos de ferro do sul, libertam-se da herança radicalista que confundia a luta económica com a luta política, e influenciados pela nova filosofia comunista, assumem uma nova atitude reivindicativa assente numa linha unitária e de massas.

Aliando as acções junto do sindicato corporativo (na mão de fantoches nomeados como Martins, Olímpio e outros), com o trabalho de organização política clandestina, preparam outras iniciativas de maior envergadura.

É deste tempo a história de coragem e abnegação do ferroviário de origem alentejana, Hermenegildo Correia, ingressado nos quadros clandestinos do PCP, que morreu num acidente de mota quando desempenhava tarefas de agitação política no centro do país. Foi então organizada uma acção de solidariedade, sobretudo entre os trabalhadores da CUF, para apoiar a viúva e dois filhos menores a viverem no Bairro das Palmeiras.

Em anos sucessivos, 1950, 52 e 53, os homens das ferrovias organizam concentrações na sede do Sindicato (sempre na Casa dos Ferroviários), nomeiam uma comissão de representantes, entregam um caderno com as principais exigências da classe, elaboram um abaixo assinado com 135 assinaturas protestando a melhoria das condições de vida e de trabalho, e enviam uma exposição ao Ministério das Corporações no mesmo sentido.

Apesar de alguma expectativa nos primeiros tempos da ditadura militar, a classe ferroviária foi perdendo condições de subsistência ao longo dos tempos do chamado “Estado Novo”, conquistadas duramente nos primeiros anos da República, mau grado as promessas reiteradas pelo governo salazarista e os protestos realizados pelas mais diversas vias.

Muitas vezes são os próprios apaniguados do regime a dirigirem apelos patéticos a Salazar, a quem chamam o “ferroviário número 1”, queixando-se amargamente dos administradores incompetentes. O ditador “manholas”, que nomeava as administrações, fazia acreditar através de próceres e serventuários, que a culpa era de facto dos “maus” administradores da CP.

Depois de muitos anos de promessas e adiamentos, em 1955 foi finalmente assinado com pompa e circunstância pelo Ministro das Corporações, o novo Contrato Colectivo de Trabalho. Para grande frustração da maioria dos trabalhadores ferroviários, o novo contrato dava com uma mão e tirava com a outra. Rapidamente os homens dos comboios do Sul, organizam uma exposição com 600 assinaturas, entregando-a no Sindicato, para transmitir superiormente o protesto contra as condições impostas pelo novo contrato.

Como invariavelmente acontecia, o poder político não respondeu à exposição-protesto. Os trabalhadores das Oficinas do Barreiro, já com um trabalho notável de organização política no segredo da clandestinidade, decidem radicalizar a luta. No dia 10 de Janeiro de 1956, com o coração quente mas muito frio na Natureza, paralisam o trabalho às nove horas da manhã e concentram-se junto à direcção das Oficinas, reclamando contra as condições do novo contrato de trabalho imposto pelo Ministério.

Esfalfam-se contramestres e chefes de brigada tentando dissuadir os operários: “Se o senhor director vê isto, põe todos na rua!”

– Se põe todos na rua, quem repara os comboios? – intervém Ricardo Vale, saltando para cima de uma bancada. Sobem outros trabalhadores (Fera, Lobato, Caeiro) exortando à paralisação total e argumentando: “Como não responderam à nossa exposição, vimos aqui directamente para nos ouvirem!”.

A direcção chama a PIDE e a GNR. Aumenta a revolta dos operários, a paralisação é completa, a concentração mete respeito, os agentes da polícia de Salazar ficam à distância com o “rabinho entre as pernas”. O director recebe uma delegação e promete transmitir imediatamente o teor das reivindicações à administração da CP:

– Se não nos atenderem, voltaremos a parar! – ficava o aviso sério dos representantes, muito combativos. Algumas cláusulas da Portaria do novo CCT, foram posteriormente alteradas, no sentido exigido pelos trabalhadores.

Foi lento e doloroso o processo de transformação da orientação anarco-sindicalista, profundamente arreigada nos ferroviários, que concebia a luta económica e sindical como motor da transformação política. A orientação comunista emergente a partir dos anos 30, releva os sindicatos como organizações importantes na defesa dos interesses imediatos/mediatos, mas não os confunde com a acção política organizada reservada à vanguarda – o Partido – a quem cabe o papel fundamental na luta pela transformação da sociedade.

No final da década, os ferroviários do Sul estão cientes da justeza dessa orientação, com influência decisiva na classe, que desencadeia uma nova e aguerrida fase da sua luta; 1958 é um ano de grande animação política nos meios ferroviários. Chovem petições, exposições, memorandos, cartas, telegramas, dirigidos ao Ministério das Corporações e à Presidência do Concelho, falando do “pesado mal-estar, da descrença, da revolta e indignação de muitos milhares de membros da família ferroviária”, e... “dos sindicatos que nada fazem por não terem de há muito, direcções que exprimam o sentir e a vontade da classe”. As contradições do sistema agitavam até os seus correlegionários.

Nesse ano de 1958, no Barreiro, milhares de trabalhadores da ferrovia, apoiam a candidatura de Arlindo Vicente e depois de Humberto Delgado. No dia 29 de Maio, a direcção das Oficinas tenta impor o trabalho extra, normalmente facultativo, sob ameaça de processo disciplinar. Dezenas de operários não aceitam a imposição e juntam-se a partir das 17 horas à manifestação de apoio à candidatura democrática.

Em Janeiro de 1959, numa concentração junto à Casa dos Ferroviários, na rua Almirante Reis, estão dezenas de homens das ferrovias entregando seis centenas de assinaturas, a solicitar a convocação de uma Assembleia Geral para propor e discutir o aumento dos salários há muito degradados.

Em Fevereiro e em Março de 1961, voltam a fazer-se concentrações no mesmo sentido, com a vigilância por perto da GNR, até que nos finais do ano é aprovada a revisão do ACT. Contempla algumas exigências, mas suscita de imediato descontentamentos, remanescentes da primeira aprovação em 1955, por não resolver questões essenciais como o aumento geral dos vencimentos, o que faz prever um novo ciclo de lutas a curto prazo. Os homens dos comboios vão entrar na década de 60, activos como sempre!

Texto: Armando Sousa Teixeira

Fonte: O Rio – Noticias da Moita e Região

David Parelho
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# Enviado em Quinta 26 Junho 2008 20:20

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